Un Giardin sul Balcon

"Non ghe xe erba che la varda in sù che non la gabbia la so virtù" (da tradição vêneta)

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domingo, 5 de junho de 2011

Inspiração Oriental

Sábado à noite, assisti um filme em que a Brittany Murphy tenta aprender a fazer lámen, um tipo de minestrone japonês. O filme, The Ramen Girl (esqueci a obviedade que usaram como título na tradução), é uma mistura engraçada de Como Água Para Chocolate (o caldo de Abby faz as pessoas chorarem, como o banquete de Tita) com Tampopo - os brutos também comem spaghetti (um filme japonês nonsense). Abby é uma borderline típica: cruza o mundo atrás de um cara que recém conheceu, não dura mais do que três meses em um emprego, gasta as teclas do celular de tanto importunar o amado, aparece de toalha na rua, no meio de uma discussão. Nos primeiros minutos do filme, empatizamos com o cara que a abandona. A convivência com os japoneses logo exerce efeito calmante sobre ela. Abby aprende a ter paciência, a ser meticulosa, humilde e, o mais importante, admitir a existência do outro como algo independente, separado de seu próprio ser. O dono do restaurante, o mais improvável dos professores, vive processo semelhante: precisa aceitar o desejo do filho de seguir carreira longe do estabelecimento familiar. É interessante assistir sua evolução: da raiva autodirigida, na forma de um beber excessivo, para a raiva dirigida a Abby, que sofre todas as humilhações possíveis e, no fim, à resignação e ao surgimento de um novo caminho. É claro que tantos caldos, algas, cogumelos e legumes bem cortados açularam meu apetite. Enquanto via o filme, cortei repolho, cenoura e cebola, iscas de carne; busquei aipo, cebolinha e acelga no jardim, descongelei umas vagens e salteei tudo no óleo, por ordem de tempo de cozimento, com sal e molho de soja. Não era lámen, mas matou a vontade e manteve a proposta low-carb do meu fim de semana.  

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Frico Fondente

Em sentido horário, curry, manjerona, sálvia variegata, cebolinha francesa, pissacàn, borragem e levístico, o bouquet garnì que colhi para temperar meu frico.


Clockwise, curry plant, majoram, varigated sage, chives, dandelion, borage and lovage, the bouquet garnì I gathered to season my frico.




Este é o frico fondente, um delicioso prato feito de batatas e queijo. Cozinhe algumas batatas em água fervente e salgada, reduza-as a um purê e, quando estiverem em temperatura ambiente, misture-as a uma xícara de queijo ralado, pimenta preta moída na hora e a uma cebola pequena, picada e salteada em azeite. Frite essa mistura em azeite, tostando-a em ambos os lados, sirva com ervas picadas. Atenção para não picar demais as ervas e para fazer isso por último, logo antes de servir, de maneira a preservar os óleos e aromas voláteis delas. Quanto ao queijo, o original e certo seria o montasio, mas não se encontra por aqui. Então, eu usei um tipo fontina que estava fazendo aniversário na minha geladeira. Afinal, é essencial que o queijo seja stagionà, isto é, envelhecido...




This is frico fondente, or melting frico, a delicious first course made of potatos and cheese. Boil some potatos in salted water until they can be mashed and mixed to a cup of grated cheese. Add ground black pepper and a small onion, diced and sautèed in olive oil. Fry this mixture in the same pan, on both sides, serve sprinkled with minced herbs. Do not overmince the herbs and mince them right before serving, in order to keep most of their essential oils and aromas.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Bisi alla Copa

Essa é da série "cozinhando-para-uma-só-pessoa" e é uma releitura minha de um contorno clássico da culinária romana: piselli al prosciutto (que significa ervilhas ao presunto). Como todos sabem, o presunto cru é o mais comum na Itália, ao contrário daqui, aonde encontramos rotineiramente o cozido. O melhor prosciutto crudo da Itália se faz em San Daniele del Friuli, embora o de Parma seja mais famoso. Hoje eu improvisei com copa, que eu mostrei em outro post, e que é o meu preferido dentre os embutidos que se fabricam aqui na região. Bisi é ervilha em talián. Questões culturais resolvidas, vamos à receita: numa panelinha que já está em fogo alto, eu jogo um fio de azeite e um naco de manteiga. Douro ali uma cebola pequena, picadinha. Acrescento as ervilhas, que já foram cozidas em água fervente e salgada. Deixo refogar. Depois de uns cinco minutos, completo com salsa (ou menta) picada e cubos de copa. Deixo mais um minuto. Enfeito com brotos de beterraba do giardin e como com arroz, na tigelinha, de colher.


Cooking for one, when you get home at night, after a tiresome working day is a hard task. Chances are that you end up ordering some greasy stuff or that you eat anything that is in the fridge. But days and weeks go by and also goes your daily joy of living shall you choose to proceed this way. This is a nice, cozy and fast little recipe that I call bisi alla copa (peas and coppa). Where I live, coppa is a fairly ubiquitous piece of charcuterie and it is made of pork shoulder and seasoned with cinnamom and pepper. This is how I cook it: Sauteè a diced little onion in hot olive oil and melted butter. Add the already cooked peas (do not overcook, just three minutes in boiling salted water are enough) and sauteè for a while. Towards the end of cooking time, add diced coppa and some chopped parsley or mint (or both). Garnish with beet sprouts and eat with white rice or pasta. In Italy, prosciutto crudo is used instead. I do not recomend boiled ham, because to me it has a sad, poor taste of cold supermarkets.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Portulaca e Funghi

Os cogumelos de hoje de manhã instigaram um desejo. Os funghi de Teutônia estão entre as minhas três principais razões para morar aqui. De vez em quando, eu me animo a buscá-los, numa chácara lá no idílico caminho para a Westfália e daí é FunghiFest durante uma semana inteira. Uma Kerb de Funghi. Hoje os Cardoncelli, meus preferidos, estavam em falta. Parece que houve problemas para cultivá-lo. Tenho aqui em casa uns esporos de Pleurotus que estou estudando onde inocular. Quem sabe um dia... E só para atiçar quem gosta de cozinha-rápida-e-prática-para-uma-pessoa-só (e gosta de funghi também), aqui vai uma janta digna de Titânia, a Rainha das Fadas: Beldroega (Portulaca oleracea) e Funghi Shimeji. É só lavar bem a portulaca, acrescentar o suco de um limão (ajuda um pouco a preservar a cor), sal, pimenta e azeite e refogar por menos de cinco minutos (ela solta água, não precisa se preocupar). Em outra panelinha, dourar um dente de alho free (o único vegetal processado da minha vida) em azeite e refogar os funghi despedaçados com sal e pimenta por cerca de cinco minutos também. Juntar tudo na mesma panela e acrescentar uma colher de manteiga, mexendo vigorosamente por um minuto (já pode ser com fogo apagado). Comer assim, numa tigelinha mesmo. Cuidado para não se queimar, estará quentíssimo e a gula não permitirá esperar.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Levisticum officinale


Hoje, eu jantei Pendalons, que é um prato friulano à base de verduras. Primeiro, descasquei e cozinhei um pouco, em água salgada, três batatas em cubos. Enquanto isso, lavei, tirei os talos e os fios de um punhado de vagens fininhas. Assim que escorri as batatas, usei a mesma panela para cozinhar as vagens, em nova água salgada. Enquanto isso acontecia, descasquei e piquei uma cebola pequena. Quando escorri a vagem, usei a mesma panela para refogar a cebola em azeite. Com a cebola dourada, reintroduzi as batatas e vagens, um pouco mais de azeite e salteei tudo, enquanto picava o levístico fresco. Por fim, joguei a erva picada por cima da mistura e uma pitada de pimenta fresca. Para mim, esse prato é a essência de jantar sozinha: gostoso, suja pouca louça e fica pronto ligeiro. Será que alguém gosta de cozinhar para uma pessoa só?
Quanto ao levístico, é um parente persa do aipo, que já foi muito famoso nos jardins da Idade Média e um dos preferidos dos romanos, que o empregavam para os mais variados fins, de conquistas amorosas a picadas peçonhentas, passando por prosaicas dores de garganta. Embora sua indicação clássica seja como tempero de sopas, eu gosto de usá-lo em legumes, omeletes e frango. O sabor remete ao aipo, mas o aroma é penetrante e único e se desprende por inteiro com o calor.