Un Giardin sul Balcon

"Non ghe xe erba che la varda in sù che non la gabbia la so virtù" (da tradição vêneta)

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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Curry, Curry trees, Curry Plant, Caril

A respeito do curry (ou caril, como aprenderam os portugueses em suas viagens às Índias), se poderiam escrever tratados, pois parece se tratar de um fenômeno gastronômico complexo, uma nomenclatura genérica que abarca um sem-fim de misturas de temperos, próprias de regiões da Malásia, da Índia, do Ceilão, das Índias portuguesas (Goa, Timor, etc), da China e do Japão e até da cozinha britânica, que sofreu influências ao colonizar a Índia. Eu li que o curry é, muitas vezes, uma receita de família, uma receita regional ou um segredo do cozinheiro. Li que o curry costuma ser feito na hora, como todo bom tempero e que varia de acordo com o ingrediente principal do preparo. Li também que a curcumina, princípio ativo da curcuma ou açafrão-da-terra (que eu tenho no meu jardim) reduz a degeneração neuronal do Mal de Parkinson. Isso é um estudo da Johns Hopkins que eu pretendo localizar e ler. É o açafrão da terra que dá a cor dourada a alguns curries, mas ele não é parente do açafrão europeu (Crocus sativus), que é um líriozinho. Há também regiões em que a palavra curry designa um molho, uma pasta que acompanha outros pratos, como o homus árabe ou a nossa pasta de berinjela. Em geral, o coentro e o cominho, junto com a pimenta, a folha de curry e o açafrão da terra, integram os curries indianos. Noz-noscada, macis, cravo, canela, feno-grego, asa-fétida e ghee (uma manteiga clarificada) também podem participar. Na região de Bengala (aquela dos tigres), por exemplo, o pessoal põe grãos de mostarda na mistura. Já os curries do Punjabi (a região pela qual brigam indianos e paquistaneses), levam ghee ou creme e masalas (que são blends de especiarias). Ingredientes mais insólitos, como coco e sementes de papoula, também podem aparecer. Já nos curries britânicos, surgem o cardamomo e o sal. Eu li que o tempero do goulash, meu querido goulash com polenta, pode ser considerado um curry. Faz sentido. Eu meio que tenho uma receita secreta mesmo.

Este é o meu espécime de curry plant (Helychrisum italicum) que é uma planta ultra-resistente e cheirosa, onipresente em minhas fortaias (omeletes) e pratos de frango. Nada a ver com as folhas de curry nem com o curry - tempero composto, a não ser, talvez, pelo cheiro, que lembra muito as tais misturas de especiarias. Ela é parente das margaridas e dos girassóis, uma asterácea e seu nome científico é muito poético, pois vem do grego helios - sol e chrysos - ouro, dourado: sol dourado da Itália, se poderia traduzir. Não é lindo? Quando eu abro a porta da varanda, é o primeiro aroma que me cumprimenta. Quando eu molho as plantas, também. Recomendo a todos um galhinho que seja dessa espécie, pois ela pega fácil de galho. Dizem que os gatos não gostam muito dela, mas nunca recebi uma visita felina que comprovasse a teoria. Outra coisa muito boa a fazer com ela são guirlandas e pot-pourris, pois ela seca maravilhosamente, como a lavanda e o louro e é aí que o aroma mais bonito se desprende.
Da Murraya koenigii ou curry tree, eu só conheço o nome em português de Portugal, erva-do-caril. Ela veio da Índia, mas cresce selvagem no Mediterrâneo Europeu, em especial na Córsega, onde também cresce a Verbena. Li que o seu óleo essencial é muito valorizado por propriedades medicinais. As folhas e frutos são comestíveis, mas as sementes são venenosas. Como ela é chamada de neem doce ou neem negro em alguns lugares da Índia, isso rende muita confusão com o neem verdadeiro (Azadirachta indica), cujo óleo se usa como pesticida orgânico, mas elas não pertencem nem à mesma família. A murraya é uma rutácea (da família da ruta - arruda, em italiano) e a azadirachta é uma meliácea, parente do mogno e do cedro-rosa. Parece que a murraya frequenta as panelas do sul da Índia e do Ceilão (Sri Lanka), mas é especialmente assídua nos curries que são feitos por lá. Refogadinha junto com a cebola, a folha da murraya é o primeiro estágio da preparação do famoso tempero composto indiano.

E daí? Resolveu-se a confusão ou ficou pior? Heheh...


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

De Araque

Sobremesa: Herice el lauz (doce de semolina com amêndoas e calda de rosas)
Antipasto: Falafel (bolinho de grão de bico, cebola roxa, gengibre, cominho, coentro, pimenta síria e all spice.

Primo e Secondo: Moussaka (lasanha grega de berinjelas e batatas fritas, com ragú de carne e besciamella) e Lahem michwi (espetinhos de carne temperada com limão, cebola roxa e pimentão) - Repararam que o espetinho é um ramo de alecrim? Na foto panorâmica aí abaixo, ainda se vê a Mjadra (arroz com lentilhas, macis e cebola caramelada).
O que foi isso? Eu, fazendo comida árabe? Pois é... No fim de semana, o Gusta e eu fomos comer em um restaurante árabe de Porto Alegre, que eu costumava adorar, mas que se revelou uma frustração horrível. Depois de 40 minutos esperando a comida, esta veio às prestações, com cara de microondas e sem tempero nenhum. O quibe estava cru, o falafel seco, a lasanha de berinjela estava além das palavras mais depreciativas. Nem pedimos a sobremesa e o garçon, que só faltou cuspir em nós, não ofereceu café e atirou a conta sobre a mesa, sem que houvessemos feito uma só reclamação!
Nosso desejo árabe, contudo, persistia. Por isso, fiz minha primeira incursão nessa fascinante culinária, com a ajuda de um livro que herdei da nonna e improvisando uma lasanha de berinjela com meu moussaka grego. Ah, agora sim!



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Um passeio pelo jardim - Capítulo 2 - Sementeira


Não que o Gustavo aprove o uso da churrasqueira para tais fins, mas... é um parapeito tão adequadinho, tão à altura das mãos e ao alcance dos meus olhos, sempre curiosos para descobrir um broto, um sinal de verde no meio da terra... Ao longo do dia, passo por ali a todo momento. Uma pulverizada d´água, duas ou três vezes ao dia, um namoro... quem quer um jardim produtivo, tem de semear de modo contínuo, até porque há plantas que morrem depois de um ano, como o coentro, o endro e o cerefólio. Se a gente quer um suprimento regular, é bom ter mudas de todas as idades. A maioria das ervas precisa de sol para germinar, por isso eu não as ponho sob o sombrite (que é a telinha que vocês veem sobre o berçário). Ah, uma medida de controle da ansiedade: identificar o que foi plantado e quando. Eu costumava desistir antes das plantas germinarem e espalhava a terra em outros vasos. Resultado: um monte de mudas não identificadas randomicamente distribuídas pelo jardim, pois elas acabavam nascendo, tudo a seu tempo, né. Então, se a gente vê a data em que semeou, corrige a distorção de que parece uma eternidade!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Azeite

Azeite não gosta de duas coisas: luz e calor. Esse é o jeito certo de guardar. Não é charmoso? Eu confesso, eu confesso: eu sou uma guardadora de rolhas e vidros! Tiro os rótulos e reaproveito mesmo. Se olharem com atenção, vão encontrar até o óleo de cozinha lá na foto dos azeites, disfarçado de chic.
Esse foi o azeite aromatizado para peixes que eu inventei: coentro, endro e estragão do meu giardin sul balcon. Como eu fiz? Aqueci por uma hora as ervas no azeite. A cor ficou lindíssima, um verde profundo. O cheiro ficou muito penetrante, talvez precise diluir, mas intenso. A temperatura deve ficar abaixo daquela em que o azeite começa a queimar (cerca de 165 graus).

Garrafas de azeite são objetos fetiche para os aficcionados em cozinha. Pode reparar: toda propaganda de móveis para cozinha tem como enfeite uma garrafa de azeite. Tem gente que compra só pela garrafa, nem gosta muito do gosto. Eu gosto. Não só gosto das garrafas, como do gosto, vivo em busca do graal de azeite perdido e ainda customizo o azeite para os mais variados usos. Aí na foto, dá para ver um azeite toscano que tempera carnes, um apimentado, um óleo vinacciolo (que é feito de sementes de uva, lá em Ipê, próximo a Flores da Cunha), o azeite de todo dia (na garrafinha empalhada de Chianti) e os azeites especiais, que uso para finalizar pratos: o Colinas de Garzón (de Punta del Este, no Uruguay) e o chileno Oveja Negra. Ainda não é costume por aqui o azeite varietal, como o Colinas, que é feito de Arbequina e Coratina, duas azeitonas de forte sabor vegetal, vindas da Espanha, mas o fato de ser varietal permite que a gente escolha com base em algo além da aparência da garrafa. Se a gente conhece um pouquinho, sabe qual azeitona dá um azeite mais leve e floral, qual dá um azeite mais picante e verde. Daí, fica mais fácil harmonizar com o prato. Outro dia, naqueles cinco minutos de contemplação que eu sempre faço diante da prateleira dos azeites, no super, ouvi uma senhora pedir ao moço que colocava o azeite na prateleira: "moço, tem um com acidez inferior a 0,2%?" Ele olhou para ela com uma cara de telefone fora de área que eu tive de me segurar p não rir. Ora, a acidez do azeite, quer seja 0,5 ou 0,2% não faz diferença para o paladar humano. É só um critério empregado para definir o azeite extra-virgem, aquele que sai na primeira prensagem das azeitonas e que não sofre refino. O que interessa é o varietal e isso a gente acha pouco no super. Então, que opções se tem? Bom: para o dia a dia, um extravirgem de supermercado serve (até porque ninguém tá queimando dinheiro, né), desde que venha na embalagem verdinha, que atrasa um pouco a oxidação. Outra dica são os azeites de agricultura biológica (tive uma grata surpresa outro dia com um da Costa D'Oro). Já vi uns gregos de azeitona Koroneiki (que vem lá da Ilha de Creta, lembra Ana?), que são bons para quem gosta de azeite forte. Aquele que vem com o grezzo, a borra, a gente compra só pela garrafa mesmo, que é linda e fica ótima como licoreira depois. É muito improvável que tenha tanto grezzo assim para vender para o mundo inteiro, uma coisa que seria artesanal. Uma última dica: tentem os azeites daqui, os uruguayos, os argentinos e os chilenos. A qualidade costuma ser muito boa. Ouvi dizer que estão fazendo azeite em Cachoeira do Sul, mas ainda não achei para vender.

PS: Outro dia, a Adriana, que está fazendo a identidade visual dos meus produtos, me perguntou se a gente pode fritar com azeite. Ela disse que corre uma lenda de que o azeite aquecido faz mal. Bom, se isso fosse verdade, não tinha mais um italiano sequer no mundo, todos mortos... de azeite! Heheh, brincadeiras à parte, o azeite é uma ótima gordura para fritar, desde que se observe a temperatura constante, que não se reaproveite o azeite (a não ser para fazer sabão, o que é ótimo e ecológico) e que se saiba proporcionar a quantidade de azeite para o alimento a ser frito. Colocar azeite frio misturado com o azeite quente encharca a fritura. Colocar pouco azeite queima logo o alimento. Sù co' le rècie! (Fiquem de orelhas em pé, prestem atenção, em talian)